Da mão que toca o rosto
Dos murmúrios sem sentido ao pé do ouvido.
Do leve declínio.
Do envenenar-me com seu gosto quente.
Dos olhos cansados ao entardecer.
Do alivio de não acontecer.
Da solidão quando se vai.
Do empobrecer de frases.
Do não sentir.
Do não viver.
Do desaparecer.
Da ansiedade do amanhã.
Do não ter que pedir.
Do não querer precisar.
Do instante que não causa.
Das causas do instante.
Do cheiro que colou.
Do medo de não reprimir.
Das chances esvaindo-se.
Das evasões sem razão.
Da irrelevância de querer
Do que não se pode alcançar.
Dos desejos em vão.
Do caminho que não será percorrido.
Do pecado da pureza.
Dos sonhos que ludibriam.
Dos corpos que se contorcem.
Dos dias que não saciam.
Da incontrolável vazão ao desespero.
Do remoto controle de nada.
Da impaciência da aceitação.
Das bocas entreabertas.
Da mentira que assombra.
Do descaso que contamina.
Do vermelho intenso.
Da conformidade da ausência.
Da beleza das janelas fechadas.
Do paralelo ao real.
Das fantasias que não se realizam.
Do concretizar de loucuras contidas.
Do acordar com outros olhos piscando.
Do coração que não pulsa.
Do sangue que percorre.
Do não amar.
Do perigo que acalenta.
Da ideia de não ceder.
Dos gritos abafados com o travesseiro.
Dos momentos doces.
Dos leves movimentos.
Do perder-se por ai.
Dos sentimentos que não se manifestam.
by Neh